Ninguém mandou meu filho entrar naquela casa.
O Wesley era só um motoboy de aplicativo. Vinte e seis anos, uma moto alugada.
Naquela noite ele largou a moto no meio da rua. Tinha criança gritando dentro do fogo.
Ele podia ter esperado os bombeiros. Podia. Mas ele não esperou.
Entrou sem equipamento, sem proteção, e foi tirando as crianças uma por uma. Foram seis.
Para salvar o bebê, ele pulou da janela.
O fogo tomou a escada. Não havia mais saída.
Ele abraçou o bebê no peito e pulou do segundo andar.
Na queda, girou o corpo para cair de costas, com o bebê protegido em cima dele.
O bebê sobreviveu com arranhões. O Wesley quebrou as duas pernas e fraturou a bacia.
Salvou seis vidas. Hoje não levanta da cama.
As queimaduras nos braços ainda estão cicatrizando.
As pernas precisam de cirurgia com placa de titânio. A bacia precisa de reconstrução.
O SUS faz o básico, mas a fila da reconstrução é de dez meses.
O médico foi direto: se não operar em três meses, ele pode não andar direito nunca mais.
Sou viúva. Ele é o meu único filho.
O pai do Wesley já morreu. Ele é meu único filho e o único sustento desta casa.
Aluguel, luz, comida, remédio: tudo saía das corridas de aplicativo. A moto nem é dele, ele aluga por quatrocentos reais por semana.
Agora ele está num leito de hospital e eu, em casa, sem saber como pago a próxima conta.
Ele salvou seis crianças e não consegue mais salvar a própria mãe da fome.